Ir direto ao Conteúdo

Filosofia Clínica on-line

13 de 08 de 2020

Ilustração Diária com Lúcio Packter

Algumas questões pessoais de um filósofo clínico

Aula Avançada – maio de 2010

O programa da aula avançada trata dos problemas pessoais que um filósofo pode enfrentar e as indicações sobre o que pode ser feito.

Estude o encarte, retirado do filme O Terapeuta, no qual Kevin Spacey faz o personagem Henry Carter, médico de pessoas famosas nos EUA, em Los Angeles. Ele passa por crise pessoal muito grave, após uma perda.

Entre as questões a considerar, podemos citar:

  1. Como reconhecer uma crise pessoal?
  2. Quando buscar ajuda?
  3. Qual a ajuda a ser buscada, de quem, de qual maneira?
  4. E quando os parâmetros éticos e epistemológicos são ultrapassados?
  5. Relações entre problemas pessoais do filósofo e a qualidade do atendimento que presta em consultório.
  6. Prevenção e desenvolvimento: recomendações.

 

 


 

A seguir, um texto de Hélio Strassburger para a reflexão dos colegas:

 

O cuidado do Cuidador

A busca pela melhora do outro, acessa e constitui no terapeuta, um conjunto harmônico de estruturação para sua vontade, a instruir habilidades e talentos, propícios as desconstruções que poderá proporcionar, pela via da interseção.

O Filósofo Clínico atuante sabe que sua experiência pode valer muito pouco, pois cada Partilhante traz consigo uma originalidade que o constitui, devido a natureza de seus desdobramentos em singularidade. Com base na fenomenologia, no historicismo e analítica da linguagem, referenciais metodológicos dinâmicos à serviço da vida, pode-se, a cada encontro, produzir um espanto para com a condição do outro que chega, tanto no que se refere a si próprio em relação, como nos impactos que esta interseção poderá causar na sua humanidade.

Um olhar atento e estudo permanente da sua pessoa, através do dado epistemológico voltado ao papel existencial em ser Filósofo Clínico, se faz fundamental para viabilizar qualidade na clínica que realiza. O terapeuta é alguém que aprende com o aprendizado dos seus Partilhantes. Analisa, reflete e compartilha, desconstrói e reelabora em conjunto, exercita sua plasticidade pelos caminhos em devir da sua humana condição.

Para a S., Filósofa Clínica há cinco anos é assim: “(...) Esta possibilidade pedagógica que a clínica oferece ao meu ser terapeuta, constitui-se em ocasião de crescimento pessoal ... todo este tempo atendendo, compreendendo e interagindo com o mundo dos outros, tem feito com que eu me sinta uma pessoa melhor (...)”.

Esta reflexão que o olhar do terapeuta faz sobre seu papel existencial, além de todo o contexto da clínica que realiza com o Partilhante, pode oferecer cuidados ao cuidador, o qual nem sempre dispõe de uma clínica didática ao seu alcance, a qual por si só, compartilhada com um colega, poderia auxiliar em casos de dificuldade maior.

Neste sentido a autoterapia do filósofo pode ser possível, em algumas circunstâncias, em outras não, dependendo dos tópicos estruturais significativos e da interseção que estes possam manter na forma de ser do clínico. Bem assim a natureza dos caminhos  que percorre, através das partes de si mesmo que oferece à relação terapêutica.

Ao propor parcela significativa de seu ser ao ser do Partilhante, o Filósofo Clínico pode de forma analítica, crítica e reflexiva, elaborar-se no curso destes processos clínicos, que são as sessões com o outro, sem perder-se de si mesmo e das suas circunstâncias em papel existencial do ser Filósofo Clínico, a manter caminhadas exploratórias compartilhadas, pelos desconhecidos espaços da geografia interior do outro.

A I. é Filósofa Clínica há seis anos: “(...) eu consigo, na maioria das vezes, efetuar uma espécie de autoterapia, pois já tive, na minha formação, na etapa do pré-estágio, oportunidade de realizar a minha clínica ... lá eu pude me conhecer melhor ... buscas e valores, representação de mundo e emoções, pré-juízos e epistemologia ... saber como isto tudo interage dentro da minha estrutura no trabalho com o Partilhante ... também acessar os caminhos para a minha própria melhora, os quais estão ali, à minha espera por percorrê-los e me sentir melhor. Quando encontro alguma dificuldade maior, tenho meu próprio terapeuta que me socorre (...)”.

A filosofia clínica pode se constituir em uma terapia que cuida do Partilhante e, bem assim, uma dialética permanente, a oferecer ao ser do clínico, ocasião de transformação e crescimento pessoal. Para tanto é necessário um misto de coragem, abertura e impulso na direção do outro, no sentido de oferecer tudo aquilo que possui: metodologia, vivências, contextos e tudo mais que for aparecendo como resultado da interseção. Sendo que estes poderão ter um significado reduzido, se o filósofo desmerecer aquilo que possui de mais sagrado, passível de aparecer ao Partilhante quando em interseção: sua humanidade em vir-a-ser.

O cuidado de quem cuida, se for adaptado a natureza e contexto da atividade clínica, pode elaborar um ambiente propício a melhora das dores da alma, ilustres desconhecidas aos olhares de ‘ver para crer’, impregnados por um querer ter razão explicativa e comprobatória para tudo.

A disponibilidade e o acolhimento que o abraço sugere, antecipam agradáveis momentos, de desarmar velhas e amargas recordações, pela via do relato compartilhado da pessoa, a qual encontra no ser terapeuta do filósofo um cúmplice, alguém para dividir e somar, em direção as buscas que o processo clínico indicar, realizando alegrias e bem estar singulares, adaptados as realidades que podem se mostrar em interseção.

Um olhar  e uma escuta fenomenológicas, podem tornar possíveis ao Filósofo Clínico, quando em desempenho de seus papéis existenciais, um processo de auto-descoberta e melhor conhecimento de si, tanto quando em solidão com os próprios pensamentos ou naqueles instantes de relação clínica com o outro, continente de onde brotam especiarias e novidades de todo jeito e aspecto, muitas vezes a provocar desdobramentos na estruturação do cuidador.

Há que se cuidar e tratar com carinho a pessoa do terapeuta, este ser enigmático aos olhos da razão determinista, mas um sujeito íntimo das estruturações em sofrimento, para o qual, muitas vezes basta um sentir, olhar ou intuir, revelando o melhor de si mesmo nas circunstâncias e perspectivas do seu papel existencial: ser Filósofo Clínico. Para a N., Filósofa Clínica há cinco anos: “(...) o que acontece é uma transformação. Recolho forças e subsídios dentro de mim, que às vezes me surpreendem ... não sabia que tinha tais atributos para tratar determinadas questões ... e me sair tão bem (...)”.

Para que isto seja possível, um tratar permanente da pessoa do terapeuta, alguns tópicos podem auxiliar decisivamente. A epistemologia se oferece antes mesmo de ser requisitada, para quem a possui desenvolvida. O que acha de si mesmo em relação aos outros que os Partilhantes vão oferecendo. As representações de mundo, compartilhadas pela via positiva ou negativa, muitas vezes atraem significativos resultados.

Um papel existencial estruturante ao sujeito terapeuta se faz essencial em muitos casos, pois será convidado a navegar por oceanos belíssimos ou mergulhar em águas profundas e infestadas de armadilhas, tão exóticas quanto os lugares onde se encontram, buscando orientar-se com habilidade, para contaminar-se com tudo isto e retornar às suas próprias águas, agora impregnado pelas versões e sensações experienciadas na interseção, pré-requisito para investigar estas águas em conflito, sem afogar-se por lá ou destruir a flora e a fauna do lugar, na tentativa de melhorar as coisas.

Demais tópicos específicos e determinantes a cada um, devem ser valorizados em um processo de autoconhecimento, nem sempre acessível ao olhar acostumado a ver o outro da interseção através da historicidade e desdobramentos de Partilhante. Agora trata-se de elaborar através disto tudo, aquilo que tem sido a vida do terapeuta, uma viagem por lugares distantes e tão próximos da sua própria estruturação e condição humana.

Existem vários momentos do vir-a-ser que caracteriza a atividade terapêutica, uma delas é a significativa relação que se estabelece, entre o Filósofo Clínico e Partilhante, através do olhar epistemológico que àquele realiza sobre sua condição pessoal em ser terapeuta na relação com cada especificidade onde atua, o lugar e os tempos necessários as interrelações que vão acontecendo.

Um fazer clínico eficaz pode se mostrar nas mais variadas circunstâncias e contextos. Lugares, tempos e interseções, singulares e irrepetíveis, vão tornando possível a utopia da melhora subjetiva.

 

 

    

 

 

 

 

 

 

Sugerimos o estudo em grupo. Se possível, é indicado pegar o filme em uma locadora e promover uma discussão prévia.

Um dos Prefácios às Sinonímias

Portugal - jornada de estudos

Escócia 2011 - o terceiro evento, terceiro encontro internacional de Filosofia Clínica

Histórias Terapêuticas

Grécia 2009 - o primeiro evento, encontro internacional de Filosofia Clínica

Sinonímias - Semana de Estudos 2014

Para onde você olha?

Filosofia Clínica, Psicologia, Psiquiatria - modelos de mentes

Exemplificações em textos

Ilustrações para a Vida

Espelhos

Recordações, Memórias

Aproximações - as vivências suburbanas

Meditações

Mediações

O Atendimento sem Historicidade

Instituto Packter Cel. Lucas de Oliveira, 1937 | Porto Alegre - RS